Mesmo com a pandemia da Covid-19 levando a economia global à recessão, 2020 foi um ano bom para o setor de energia renovável, como uma classe de ativos. Com novos ventos favoráveis prometendo impulsionar o setor, acreditamos que 2021 verá uma recuperação ainda maior do interesse do mercado de capitais pelo setor.

Apesar de numerosos ventos em contrário, a economia global continuou sua transição para a energia renovável em 2020, com uma quantidade recorde de nova capacidade instalada em todo o mundo. A saúde do setor estava em nítido contraste com a da infraestrutura e dos combustíveis fósseis, e a subsequente fuga para a qualidade se traduziu em inundações de capital à medida que as instalações continuaram a crescer, apesar das perturbações econômicas e sociais causadas pela pandemia do Coronavírus.

Em geral, os investimentos de baixo carbono – que cobrem a energia renovável e outras tecnologias que reduzem a dependência de combustíveis fósseis – aumentaram 9% em 2020, de acordo com uma análise da Bloomberg New Energy Finance (BNEF). E essa tendência de alta parece que vai continuar. De acordo com uma pesquisa recente da Octopus Capital, os investidores institucionais globais planejam aumentar sua alocação em energia verde de 4,2% de sua carteira geral, para 8,3% nos próximos cinco anos e para 10,8% dentro da próxima década. 

UMA OPÇÃO ATRAENTE

Um dos principais fatores por trás disso é a crescente demanda por energia limpa em meio à pressão política para cumprir os objetivos ambiciosos do acordo de Paris, um compromisso climático internacional para manter o aumento da temperatura global abaixo de 2%. Segundo o Goldman Sachs, o cumprimento desses compromissos exigirá investimentos de até US$30 trilhões em infraestrutura de energia limpa até 2040. O banco de investimento espera que esta clara trajetória de crescimento impulsione os gastos com projetos de energia renovável acima dos gastos com petróleo e gás neste ano – a primeira vez na história que isso vai acontecer.

PREVISÍVEL, ESTÁVEL E COMPETITIVO

Mas, além da crescente demanda por energias renováveis, há vários outros fatores em jogo que estão levando mais investidores a entrar no setor. O primeiro é sua estabilidade. Os produtores de energia tradicionais raramente firmam contratos de preços que abrangem décadas. Os produtores de energias renováveis, por outro lado, podem fazer isso, graças à inesgotabilidade de suas fontes de energia.

A pesquisa da Octopus Capital, que cobriu investidores de todo o mundo com ativos totais combinados de US$6,9 trilhões, descobriu que mais da metade dos entrevistados veem a previsibilidade da energia verde como um motivo para capitalizar no mercado. Historicamente, e como foi ilustrado com um dia sem precedentes em 2020, quando o preço do petróleo ficou negativo, os preços dos combustíveis fósseis e, por extensão, da eletricidade baseada em combustíveis fósseis, têm sido extremamente voláteis

O custo das energias renováveis, entretanto, tornou-se cada vez mais competitivo comparado com os combustíveis fósseis, à medida que novas tecnologias, incluindo painéis solares bifaciais e rastreadores, estão ajudando a melhorar a eficiência. Consequentemente, o custo médio de energia (LCOE) da energia solar, despencou de US$359 em 2009 para uma média de US$40 uma década depois – uma queda de 89%. Segundo Marcel Alers, chefe de energia do PNUD, “agora é mais barato usar a energia solar do que construir novas usinas de carvão na maioria dos países e a energia solar é agora a eletricidade mais barata da história.”

Os investidores também estão sendo atraídos pela promessa de gastos governamentais vultosos e de incentivos fiscais para projetos verdes à medida que as economias em todo o mundo buscam retornar ao crescimento. Por exemplo, ao tomar posse, o recém-eleito presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, revelou um plano de investimento em energia limpa de US$2 trilhões, visando 100% de eletricidade limpa até 2035. Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, o “Acordo Verde” da União Europeia inclui US$572 bilhões destinados a gastos em projetos verdes, entre eles a geração de energia renovável.

RISCO VERSUS RECOMPENSA

Outro fator é o risco envolvido em combustíveis fósseis comparado com energias renováveis. Um estudo recente do Instituto de Estudos de Energia da Universidade de Oxford perguntou a investidores institucionais, incluindo gestores de ativos, fundos de hedge e investidores de capital privado nos EUA e na Europa, qual seria a taxa mínima exigida para investir em diferentes projetos de energia e descobriu que os investidores agora esperam riscos maiores em projetos de petróleo e gás em comparação com projetos de energia solar e eólica. 

De fato, para 2021, o Goldman Sachs coloca a taxa mínima para os projetos atuais de combustíveis fósseis em até 20%, contra apenas 3 a 5% para projetos de energias renováveis, demonstrando não apenas que questões como o potencial de ativos de combustíveis fósseis encalhados se tornaram uma preocupação central, mas também que a energia renovável não é mais vista como uma aposta marginal, e sim como uma classe de ativos dominante.

As perspectivas macroeconômicas também favorecem as energias renováveis. À medida que os governos continuam a implementar os pacotes financeiros relacionados ao Covid, as taxas de juros devem permanecer mais baixas por mais tempo. Enquanto isso, a expansão econômica parada resultou em uma escassez geral de oportunidades de investimento de alto rendimento, deixando os investidores em busca de investimentos de longo prazo e de baixo risco – que os projetos de energia renováveis e a energia solar em particular – oferecem aos montes.

Como resultado, metade dos investidores entrevistados pela Octopus Capital disseram que esperam que a energia renovável gere retornos líquidos anuais superiores ao do mercado, de 5% a 10% nos próximos 12 meses, e 80% disseram que planejam aumentar as alocações neste setor ao longo dos próximos três a cinco anos.

Na América Latina, estamos observando uma tendência semelhante à medida que os investidores buscam oportunidades em energias renováveis para atender sua busca por rendimento. Em particular, os projetos com oportunidades de receita que são contratados por períodos mais longos e com uma maior proporção de capacidade de geração, estão se tornando cada vez mais atraentes.

TORNAR-SE VERDE VIROU IMPERATIVO

A quase inevitabilidade da precificação do carbono, bem como a pressão crescente sobre as empresas para que informem sobre os seus riscos climáticos, também tem visto os investidores começarem a refinar suas carteiras para evitar perdas futuras, abandonando os combustíveis fósseis, tanto petróleo como carvão, substituindo-os por energias verdes.

Segundo a BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, de janeiro a novembro de 2020, investidores em fundos mútuos e ETFs investiram US$288 bilhões globalmente em ativos sustentáveis, um aumento de 96% em todo o ano de 2019. Em sua recente carta de 2021 aos CEOS, Larry Fink, o presidente do conselho e CEO da empresa, anunciou que a empresa agora irá implementar um “modelo de maior escrutínio” em suas carteiras ativas, como uma estrutura para a gestão de participações que representam um risco climático significativo, incluindo a sinalização para uma possível saída dessas participações.

Investimentos verdes certificados, em linha com padrões como os “Princípios de Títulos Verdes” e os “Princípios de Empréstimos Verdes”, também estão se consolidando no mercado. Na Atlas, implementamos a nossa “Estrutura Financeira Verde” em nossos projetos recentemente anunciados e estamos observando uma tendência crescente no número de investidores que procuram participar de instrumentos de financiamento verde, incluindo títulos e empréstimos.

Assim, à medida que os investidores avaliam até que ponto o risco climático é um risco de investimento, os projetos de energias renováveis se tornaram uma alternativa atraente para investidores, tanto em infraestrutura como em energia.

UM FUTURO BRILHANTE

Contra todas as probabilidades, a transição global para as energias renováveis continuou acelerada no ano passado e essa tendência não mostra sinais de desaceleração. Dado todo o crescimento esperado à frente, acreditamos que a energia renovável oferece um potencial de retornos para os próximos meses e anos que superam o mercado e esperamos não ver falta de interesse de investidores que procuram investimentos estáveis e previsíveis e que se alinham com seus objetivos ASG – Ambientais, Sociais e de Governança – relacionados.